Segunda-feira, Abril 20, 2009

É estranho mas é o que sinto


Eu tenho uma amiga que se chama Jussara. Ela tem câncer. Ela tem vida. Ela tem uma energia enorme, acabou de fazer sua terceira cirurgia e hoje fui vê-la no hospital. Quando cheguei dei um beijo gostoso nela e sentei do seu lado. Senti o morno de suas bochechas e seus cabelos eram como um escorregador por onde meus dedos deslizavam. Lisos, sem nós, limpos. Exatamente como a percebo. Estar ali foi um dos melhores momentos da minha vida nos últimos dias. Deu-me calor, me encheu de amor, me deu prazer.

Parece estranho dizer isso quando falo de uma amiga que está tratando de uma doença silenciosa e rápida? De uma doença que não quer dar trégua pra ela? Parece e é. Mas o mais louco é sentir, no meio disto tudo, que ela nunca esteve tão viva, tão presente, tão lúcida. E que sua lucidez e presença potencializam em mim a vontade – e necessidade – de ser criativa, de escrever, de me expressar sem medo. Mas e será que ela tem medo? Acho que tem. Mas não a paralisa. O medo a move. O amor a move. Seus filhos a movem.

Hoje, no quarto 469, do hospital Moinhos de Vento estranhamente me senti num encontro de amigas, previamente marcado, onde conversas rolaram, olhares se marcaram e a vida pareceu mais colorida. Como em teu sonho, Ju. Eu vi tuas flores amarelas, a entrada do viaduto, a ausência da tua calcinha e o quarto vermelho.

Pra mim o amarelo é uma fenda, uma abertura, pra algo novo. Quem sabe um sol. A entrada do viaduto pode ser um caminho com voltas, às vezes meio fechado, mas que invariavelmente quase toca o céu. Por onde se desce com os vidros do carro abertos, pra que o cabelo voe e a brisa provoque um arrepio. A falta de uma calcinha? Penso que é a liberdade que a gente tanto quer, de não se preocupar com nada e andar por aí aproveitando a vida. E o quarto vermelho é explosão, loucura, delírio, morfina. Pode ser uma dor velha que volta e te expõe à ferida, pode ser o sangue todo que tu recebeste dos teus amigos... Pode ser o amor das tuas irmãs, da tua mãe, do teu irmão, da cunhada, da sobrinha, do sobrinho, do Alemão, da Giulia, do Gabi, do Tiago, do Mateus e aaahhhhh!!!!!!!!!!!!! De todo mundo que te ama. E é gente pra caralho!

Eu tenho uma amiga que se chama Jussara. Ela tem câncer. É veterinária. É mãe, mulher, bonita. Ela tem um pedacinho de fígado. Ela é guerreira, mas prefere assumir que é frágil e que precisa de carinho. Ela tem mais vida em suas veias do que qualquer um de nós.

4 comentários:

Lisia disse...

Que lindo texto Fabi. Que privilégio que é para nós termos essa amiga Ju em nossas vidas. Abçs. Lisia.

Anônimo disse...

Lindo texto... muito a tua cara e muito a Jú! Adorei conhecer teu blog, tá 10! Bj, Kaka.

Luísa disse...

Chorei de emoção!! Reencontrei vocês duas de forma linda!! Senti as duas guerreiras cheinhas de vida, sensibilidade e amor!! Privilégio ser amiga das duas!! bjuu

Ju Maia disse...

Oi!!! Só hoje ví que posso deixar meu comentário, rssss. Nem preciso te dizer que chorei, solucei e amei cada palavra. Chorei cada uma com profunda gratidão. Solucei cada uma com todo o coração. E principalmente amei cada uma delas como te amo querida amiga. Obrigada pelo imenso carinho. Beijos no coração. Ju.

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Quem sou eu

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Fabiana Campagna
Porto Alegre, RS, Brazil
Nascida em Porto Alegre, 37 anos, mãe, curiosa, graduada em Comunicação Social – RP pela PUCRS. Neste ano assumi que gosto da escrita e fiz uma Oficina Literária com Fabrício Carpinejar, quebrando o cadeado da porta por onde passam meus sonhos e vontades. Procuro o novo nas coisas que se repetem no dia-a-dia e escrevendo percebo e vivo intensamente as novidades descobertas. E tudo que escrevo me alivia, me faz rir, me arrepia.
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